
Termorregulação no Samoieda: entender o presente a partir do passado
Para compreender como o Samoieda lida com o calor, é essencial começar pelo seu passado. Essa não é apenas uma raça adaptada ao frio — é um organismo moldado para sobreviver a extremos.
Os Samoiedas viveram por séculos ao lado dos povos nômades Nenets, no norte da Sibéria, em regiões onde as temperaturas variavam de aproximadamente -40 °C no inverno a cerca de 27 °C no verão. Hoje, esses extremos são ainda mais marcantes, com registros que vão de -30 °C até 32 °C e picos históricos próximos a 38 °C. Esse ambiente não selecionou um cão especializado apenas para o frio, mas sim um animal capaz de lidar com variações térmicas intensas.
Além disso, sua função exigia desempenho físico constante: pastoreio de renas, tração de trenós e convivência próxima com humanos dentro das tendas. Isso significa que esses cães precisavam dissipar grandes quantidades de calor metabólico gerado pelo esforço. Se fossem apenas sistemas de retenção de calor, morreriam de hipertermia mesmo na neve.
Esse contexto moldou o chamado legado Nenets: um cão com alta plasticidade metabólica, capaz de ajustar produção de calor, fluxo sanguíneo e mecanismos de dissipação conforme a necessidade.




A pelagem: uma estrutura funcional, não estética
A pelagem do Samoieda não é apenas volumosa — ela é uma estrutura funcional altamente especializada.
Explicação científica
1. Pelagem dupla e isolamento térmico
A pelagem de raças nórdicas como o Samoieda é composta por:
• Sub pelo (undercoat): denso, lanoso, com alta retenção de ar
• Pelagem externa (guard hairs): mais longa, rígida e repelente à água
A pelagem com sub pelo macio e pelos externos finos e muito longos, conhecidos como “fluffys”, deixa de ser funcional, e os cães passam a sofrer mais com as variações de temperaturas muito frias ou muito quentes.
De acordo com Zink & Van Dyke, o ar retido no sub pelo serve como isolante térmico, limitando a troca de calor por condução e convecção. Esse isolamento atua em duas direções: no frio, minimiza a perda de calor metabólico; no calor, diminui a entrada de calor do ambiente.
- Condução: É a transferência de calor por contato direto. O ar preso no subpelo impede que o calor da pele (no frio) chegue ao ambiente exterior, ou que o calor externo (no calor) chegue à pele. O subpelo cria uma zona de resistência à condução.
- Convecção: É a transferência de calor por movimento de fluidos (ar/água). O subpelo, por ser muito denso, evita que o ar frio externo circule perto da pele, eliminando a convecção que “roubaria” o calor do corpo.
Ou seja: o mesmo mecanismo físico explica a adaptação aos dois extremos.
O ar retido entre as fibras cria uma barreira térmica que reduz significativamente a troca de calor entre o corpo e o ambiente. Esse é o modelo de pelagem funcional (desejável).
Por que o ar? O ar, quando imobilizado, é um péssimo condutor de calor, tornando-se um excelente isolante térmico.
É o mesmo princípio de uma casa bem isolada: quanto melhor o isolamento, menor a influência do ambiente externo.
Trocas térmicas: o papel do passivo e do ativo
Enquanto existe diferença entre a temperatura corporal e a temperatura ambiente, o cão consegue perder calor de forma passiva. Esse processo ocorre através da superfície do corpo e da pelagem, por condução, convecção e radiação. Nesse momento, a pelagem funcional atua modulando essa troca — não bloqueando totalmente, mas controlando sua velocidade.
Porém, à medida que a temperatura ambiente se aproxima da temperatura corporal, esse gradiente térmico diminui. A perda passiva se torna cada vez menos eficiente.
Quando o ambiente atinge ou ultrapassa aproximadamente 38–39 °C, ocorre uma mudança crítica: o corpo deixa de conseguir dissipar calor passivamente, e o ambiente pode até começar a aquecer o animal.
Nesse ponto, o sistema passivo deixa de ser relevante, e o controle térmico passa a depender quase exclusivamente de mecanismos ativos, ofego.
O mesmo acontece em temperaturas extremas, onde o cão está em uma atividade física muito intensa e acaba acumulando calor corporal, seja em regiões muito frias ou quentes.
Mecanismos de controle térmico
Nas extremidades (patas e pernas), ocorre um sistema de troca de calor: o sangue arterial quente aquece o sangue venoso frio antes que ele retorne ao corpo, evitando perda térmica.
A gordura nas patas também é adaptada para não congelar facilmente.
Em clima quente, pode ocorrer o inverso, ajudando a dissipar calor.
Como os cães não suam pelo corpo, utilizam o ofego para resfriamento. A evaporação ocorre principalmente no nariz, com grande área de superfície e fluxo sanguíneo.
O controle é feito da seguinte forma:
• Inspiração pelo nariz
• Expiração pela boca para perder calor
• Expiração pelo nariz para conservar calor
Isso permite controle térmico muito preciso.
Diferente dos humanos, os cães não utilizam a pele como principal meio de resfriamento. Sua capacidade de sudorese é extremamente limitada.
O principal mecanismo ativo de dissipação de calor é o ofego.
O calor produzido no corpo — especialmente durante atividade física, onde cerca de 80% da energia se transforma em calor — precisa ser eliminado de forma eficiente. Isso ocorre através da evaporação de água nas superfícies do trato respiratório.
Ao inspirar pelo nariz, o ar passa por estruturas altamente vascularizadas, com grande área de contato.
Ao expirar pela boca durante o ofego, esse ar carrega calor e umidade para fora do corpo.
Esse processo gera resfriamento evaporativo extremamente eficiente, inclusive nas atividades intensas em baixas temperaturas, onde a temperatura corporal aumenta, não sendo raro encontrar animais em provas de – corridas de trenó “sled dog races” com a língua de fora.

O cão controla esse mecanismo com precisão.
Em temperaturas muito altas, esse sistema pode representar a grande maioria da dissipação de calor do organismo.

O ponto que quase ninguém entende
O mesmo sistema que protege do frio protege do calor.
Um corpo bem isolado sofre menos impacto das altas temperaturas externas. O ambiente quente não aquece o cão imediatamente, porque a troca térmica é reduzida. O calor entra mais lentamente, permitindo que o organismo mantenha estabilidade por mais tempo.
É mais fácil resfriar um corpo bem isolado do que um sem isolamento.
A ideia de que o Samoieda “sofre no calor” ou cães Nórdicos, surge quando se observa apenas a pelagem e se ignora todo o sistema fisiológico envolvido.
Limites do sistema
Apesar de extremamente eficiente, esse sistema tem limites claros.
Se a produção de calor excede a capacidade de dissipação — ou se o mecanismo de ofego é comprometido — o calor começa a se acumular. Fatores como alta umidade, esforço físico intenso, obesidade, idade avançada ou alterações respiratórias reduzem a eficiência do resfriamento.
Por outro lado, quando essa estrutura do pelo é comprometida — por nós, compactação, umidade excessiva, falta de manutenção ou até mesmo por tosa inadequada — a pelagem perde sua capacidade de reter ar e deixa de funcionar como isolante.
Ela passa a se comportar como uma massa estática, dificultando a circulação de ar e prejudicando a troca térmica.
Nesse cenário, o problema não é a existência da pelagem, mas a perda da sua função.
É nesse momento que ocorre a hipertermia.
Importante: isso não é causado pela pelagem.
É causado pela falha na dissipação de calor.
Conclusão
O Samoieda não é um cão incompatível com o calor. Ele é um cão projetado para estabilidade térmica, resultado de um equilíbrio entre isolamento, produção metabólica e dissipação ativa de calor.
A pelagem, quando funcional, é parte da solução — não do problema.
O Samoieda não sofre calor por causa da pelagem.
Ele sofre quando não consegue dissipar o calor que produz.
Quando é submetido a esforços extremos, onde a temperatura corporal aumenta significativamente.
Quando fica em um ambiente fechado em temperaturas extremas (fechado em um carro)
O principal é entender que qualquer cão, com manejo inadequado, irá sofrer no calor ou no frio.
Reflexão final
Influência genética na termorregulação
A termorregulação não é apenas um processo momentâneo — ela é, em parte, resultado de adaptações genéticas acumuladas ao longo de gerações.
Na literatura de fisiologia comparada e evolução (como descrito em obras de referência como Principles of Animal Physiology – Christopher D. Moyes & Patricia M. Schulte, e estudos em genética adaptativa humana), fica estabelecido que:
- Populações expostas por longos períodos a determinados climas sofrem seleção natural de características fisiológicas que favorecem a sobrevivência naquele ambiente
- Essas adaptações incluem:
- Produção e dissipação de calor
- Controle do fluxo sanguíneo periférico
- Estrutura corporal e isolamento térmico
- Eficiência de mecanismos evaporativos
Humanos
Em humanos, há evidências genéticas claras de adaptação ao clima:
- Populações de regiões frias tendem a apresentar:
- Maior conservação de calor
- Menor superfície corporal relativa
- Populações de regiões quentes:
- Maior eficiência em dissipação de calor
- Maior capacidade de sudorese
Essas diferenças são herdáveis e foram descritas em estudos clássicos de adaptação climática (como os princípios de Bergmann e Allen, amplamente aceitos na biologia evolutiva).
Cães nórdicos
Nos cães, isso é ainda mais evidente por causa da seleção artificial + natural:
- Raças nórdicas foram selecionadas por gerações para:
- Alta eficiência de isolamento térmico (pelagem dupla)
- Capacidade de suportar grandes variações térmicas
- Sistema respiratório altamente eficiente para dissipação de calor (ofego)
Estudos em genética canina (como os publicados em Nature e Science sobre domesticação e adaptação de cães) mostram que:
- Há genes associados à adaptação ao frio e metabolismo energético
- Raças de regiões extremas mantêm essas características mesmo quando deslocadas para outros climas
O ponto científico mais importante
A literatura é consistente em um ponto:
Aclimatação (curto prazo) não é o mesmo que adaptação genética (longo prazo)
- Um indivíduo pode se ajustar ao calor (como Greenlee descreve)
- Mas a eficiência máxima do sistema é resultado de seleção ao longo de gerações
Conclusão científica (direta)
Sim — a genética influencia a termorregulação.
- Em humanos: molda a eficiência de perda ou conservação de calor
- Em cães nórdicos: molda um sistema mais estável, com isolamento + dissipação eficiente
Ou seja:
o que você vê hoje no Samoieda não é apenas adaptação momentânea —
é o resultado de gerações sendo selecionadas para estabilidade térmica em ambientes extremos
Criar no calor e umidade
Criar cães nórdicos em clima quente e úmido não é uma incompatibilidade — é uma questão de compreensão do sistema térmico e manejo correto.
O ambiente tropical não elimina a capacidade de adaptação do cão, mas aumenta a exigência sobre os mecanismos de dissipação de calor, especialmente o ofego. A umidade elevada, por sua vez, reduz a eficiência da evaporação — que é exatamente o princípio pelo qual o cão perde calor.
Ou seja: o desafio não é apenas o calor, mas a combinação calor + umidade + manejo.
Os principais desafios não estão na pelagem em si, mas no contexto em que o cão está inserido:
- Alta umidade → reduz a eficiência do resfriamento evaporativo (ofego)
- Ambientes sem ventilação → dificultam a troca de calor
- Acúmulo de subpelo / pelagem compactada → prejudica circulação de ar
- Esforço físico em horários inadequados → aumenta produção de calor metabólico
- Superfícies quentes → aumentam carga térmica (asfalto, areia, piso quente)
O risco surge quando a produção de calor excede a capacidade de dissipação.
Manejo (o que realmente faz diferença)
O manejo correto atua diretamente onde o sistema precisa de suporte:
Pelagem
- Manter escovada e livre de subpelo morto
- Evitar compactação (nós e umidade retida)
- Não remover o isolamento funcional
- A TOSA NÃO REFRESCA
Ambiente
- Sombra real + ventilação constante
- Ambientes abertos ou com circulação de ar
- Evitar locais que “retem o calor” (casinhas fechadas, carros)
Rotina
- Exercícios apenas em horários frescos (manhã cedo / fim do dia)
- Pausas frequentes em atividades
- Controle de intensidade (principalmente em filhotes e cães pesados)
Hidratação e suporte
- Água fresca sempre disponível
- Superfícies frias para descanso
- Possibilidade de resfriamento (água, piso térmico, etc.)
Criar em clima quente e úmido não é sobre “adaptar o cão ao calor” —
é sobre não ultrapassar o limite do sistema térmico que ele já possui é sobre manejo correto, o que vale para qualquer raça.
Bibliografia:
- Fisiologia térmica (Greenlee + Moyes & Schulte)
- Estrutura funcional da pelagem (Zink & Van Dyke)
- Mecanismos de dissipação e limites (AKC – Jerry Klein)
- Principles of Animal Physiology (Christopher D. Moyes&Patricia M. Schulte)
- SCA – Samoyed Club Of America: Greenlee, T. (1971). Temperature Adaptation in Northern Breeds.
